O que o levantamento mostra
A Knak divulgou em 28 de julho o relatório "Marketing Production in the Age of AI", com 333 tomadores de decisão de marketing em empresas dos Estados Unidos, Reino Unido e Canadá, com receita entre US$ 50 milhões e mais de US$ 1 bilhão. Os números que interessam a quem opera:
- 70% já colocaram IA para rodar dentro do fluxo de produção.
- 64% usam IA para gerar o primeiro rascunho de e-mail ou landing page.
- 88% dizem que esse conteúdo ainda precisa de edição moderada ou substancial antes de servir.
- 85% perderam ao menos uma data de lançamento de campanha nos últimos 12 meses.
- 82% gastam pelo menos metade do tempo produzindo, revisando, aprovando e enviando, em vez de planejar.
E a parte que fecha o raciocínio, a lista dos motivos de atraso: aprovações e assinaturas (47%), produção de design e criação (38%) e coordenação entre times (36%). Leia essa lista de novo. Nenhum dos três é escrever. Os três são passagem de bastão.
A IA entrou onde o trabalho não estava parado
Junte 64% usando IA para o primeiro rascunho com 88% precisando editar o resultado. O que se comprou foi um rascunho mais rápido, não uma entrega pronta. E rascunho nunca foi o gargalo.
Isso tem nome antigo em operação: otimizar uma etapa que não é a restrição não muda o resultado do sistema. Se o processo trava na aprovação, dobrar a velocidade de quem escreve só produz uma fila maior na mesa de quem aprova. Em alguns casos piora, porque agora chegam três versões para revisar onde antes chegava uma, e o revisor é a mesma pessoa, com a mesma agenda.
Os outros números do relatório desenham essa fila com precisão: 60% dos times envolvem pelo menos quatro pessoas para produzir um único e-mail, 54% usam de três a cinco ferramentas separadas para isso, e 69% precisam de duas a três rodadas de revisão, o que o relatório calcula em mais de US$ 300 de custo de mão de obra interna por disparo. Quatro pessoas, cinco ferramentas e três rodadas não são um problema de escrita. São um problema de desenho de processo, e nenhum modelo de linguagem resolve isso sozinho.
O teste do relógio
Dá para descobrir isso na sua empresa hoje, sem consultoria e sem ferramenta nova. Pegue as cinco últimas entregas que saíram do seu time, qualquer tipo: uma proposta, um contrato, um material, um orçamento. Para cada uma, separe dois números.
Tempo de trabalho
?Quantas horas alguém esteve de fato mexendo naquilo. Escrevendo, desenhando, calculando, montando.
Tempo de espera
?Quantas horas aquilo ficou parado esperando alguém decidir, revisar, responder ou repassar adiante.
Agora compare os dois. Na maioria das operações que a Orna abre, o tempo de espera é várias vezes maior que o tempo de trabalho, e ninguém tinha medido porque o tempo parado não aparece em lugar nenhum. Não entra em planilha, não gera notificação, não vira reunião. Ele só aparece no final, quando o prazo estoura e todo mundo conclui que faltou gente.
Se o seu tempo de espera for múltiplo do tempo de trabalho, comprar mais velocidade de criação não vai mudar a sua data de entrega. Vai mudar quando você encurtar a espera: reduzir o número de aprovadores, definir prazo para cada resposta, deixar claro quem decide o que sem precisar de mais uma reunião, e automatizar a passagem entre as etapas em vez de automatizar a etapa.
Antes de acreditar no número
Quem pagou a pesquisa vende a solução. A Knak é uma plataforma de produção de marketing, então um estudo que conclui "a produção de marketing é o seu gargalo" é conveniente para ela. Vale registrar isso em vez de esconder. O que sustenta os dados mesmo assim é a coerência interna: a abertura por causa de atraso (47%, 38%, 36%) é granular demais para ser conveniente, e ela aponta para coordenação, não para a falta de uma ferramenta de criação. Vale registrar também que a amostra é de empresas grandes de três países ricos, não de PME brasileira. O padrão viaja, os percentuais não.
O que o radar da Orna mostra sobre esse ponto cego
O Observatório acompanha as notícias de IA com impacto operacional todos os dias. Classificamos os 97 registros do radar entre 2 de junho e 29 de julho de 2026 pelo assunto principal de cada um, cada notícia entrando em um único grupo. O desenho de quase dois meses ficou assim:
- 56 de 97 tratam da oferta: modelos novos, dinheiro, infraestrutura, parcerias, movimentos de mercado e cortes de pessoal.
- 24 de 97 tratam de governança e risco: controle, segurança, regulação e medição de retorno.
- 13 de 97 medem quanto se adota, sem entrar em como.
- 4 de 97 tratam de como o trabalho anda dentro da empresa: processo, passagem de bastão, onde a tarefa espera.
Quatro em noventa e sete. Menos de 5% de dois meses de cobertura sobre o único lugar onde o prazo é decidido. E os quatro casos apontam para a mesma direção, o que reforça em vez de enfraquecer: uma reportagem de junho sobre empresas brasileiras acelerando IA sem mudar processos e ampliando desperdício, o estudo da BCG em que 60% não capturaram valor real e quem capturou foi quem redesenhou a operação, e agora os dois lados do relatório de produção de marketing.
A leitura é direta. O mercado discute exaustivamente o motor e o freio, quase nunca a fila. É por isso que a conversa dentro das empresas gira em torno de qual modelo usar e de como controlar o modelo, enquanto o prazo continua estourando por um motivo que nenhuma das duas discussões toca. O ponto cego não é técnico. É de medição.
Perguntas que os donos fazem sobre isso
Então não vale a pena usar IA na produção?
Vale, e os 70% que adotaram não erraram. Errou quem esperou que isso mudasse o prazo sozinho. IA na criação devolve horas de quem escreve, o que é real e mensurável. Só não confunda essa economia com velocidade de entrega, porque são coisas diferentes e só uma delas o cliente enxerga.
Como sei se o meu gargalo é aprovação?
Faça o teste do relógio nas cinco últimas entregas. Se o tempo parado for maior que o tempo trabalhado, é aprovação ou passagem de bastão. Um sinal mais rápido ainda: se a pergunta "onde isso está agora?" precisa de mensagem para alguém responder, o seu processo não tem estado visível, e o que não é visível não é gerenciado.
Isso vale para empresa pequena?
Vale de outro jeito. Empresa pequena costuma ter poucos aprovadores, mas todos são a mesma pessoa, em geral o dono. A fila não some, ela se concentra. O ganho aqui não é reduzir aprovador, é separar o que precisa mesmo da decisão do dono do que só virou hábito de passar por ele.
O que fazer com isso
Antes de contratar a próxima ferramenta de IA, meça onde o trabalho espera. Escolha um processo que atrasa com frequência, desenhe as etapas dele numa folha, e marque em cada seta quanto tempo a tarefa passa parada ali. A etapa com a maior espera é o seu gargalo, e é o único lugar onde qualquer melhoria muda a data final. Automatizar antes dessa medição é apostar, e o relatório mostra o resultado da aposta: 70% adotaram, 85% continuaram perdendo o prazo. A tecnologia funcionou. Ela só foi instalada no lugar errado.
Fontes: Knak, "Marketing Production in the Age of AI" (28/jul/2026), levantamento com 333 tomadores de decisão de marketing corporativo nos Estados Unidos, Reino Unido e Canadá, em empresas com receita de US$ 50 milhões a mais de US$ 1 bilhão. Divulgação via PR Newswire (28/jul/2026). Método do dado próprio: classificação editorial da Orna sobre os 97 registros do archive do radar do Observatório com data entre 2 de junho e 29 de julho de 2026. Cada registro entra em um único grupo, definido pelo assunto principal da notícia. O archive tem 99 registros no total; os 2 anteriores a junho de 2026 ficaram fora da janela para não misturar períodos. Recorte só de julho, para quem quiser comparar: 29 registros, sendo 14 de oferta, 11 de governança e risco, 2 de adoção e 2 de fluxo de trabalho. Conflito de interesse da fonte: a Knak comercializa uma plataforma de produção de marketing, o que está sinalizado no corpo do texto. Esta análise faz parte do Observatório Orna, que acompanha diariamente as notícias de IA com impacto operacional.